Tudo o que você gostaria de saber sobre Bruxaria Tradicional
Crux Sabbati entrevista uma Bruxa Tradicional
Originalmente publicado em http://cruxsabbati.blogspot.com
| Katy em sua visita ao Cemitério Megalítico de Carrowmore, em Sligo, na Irlanda... |
Crux Sabbati: Quais as definições que você pode nos fornecer sobre Bruxaria?
Katy de Mattos Frisvold: Bruxaria,em matérias acadêmicas como História, Antropologia e Ciência das Religiões, é o uso alegado de poderes sobrenaturais ou mágicos. Na história isto já levou muita gente a enfrentar sérios problemas, incluindo o problema mais famoso de todos, a Inquisição. Pela pequena heresia de se roubar uma hóstia para realizar uma “simpatia”, uma pessoa podia arder na fogueira. Não é incorreto, por exemplo, declarar que a parteira ou a curandeira fosse considerada uma bruxa, pois o conhecimento das ervas e seus usos foram proibidos pela Igreja, sendo este papel sancionado a uma classe científica que ainda engatinhava. Vale também mencionar as conhecidas “velhacas” que moravam nos subúrbios, na margem entre a natureza e a sociedade, entre um limite e outro, lendo a sorte nas cartas e negociando talismãs.
CS: Existe diferença entre Bruxaria e Feitiçaria? Estas duas coisas estão ligadas?
KMF: Embora a teoria do antropólogo E.E. Pritchard dê sustentação à diferenciação entre bruxaria e feitiçaria, esta se resume ao uso de ferramentas externas ao próprio bruxo, e ele mesmo contra-argumentou usando o fator de popularidade, o de uso comum de associação, pelo menos na Europa. Historiadores em peso discordam por encontrarem traços abundantes que apontam para bruxas que poderiam igualmente usar técnicas físicas, da mesma maneira que tentavam isto através de “pensamentos”. As razões para as acusações de bruxaria, historicamente, caiam em quatro categorias gerais:
1. Uma pessoa que era pega no ato de feitiçaria, “positiva” ou “negativa”
2. Pessoa bem intencionada, curandeira, que perdeu a confiança de seu cliente ou das autoridades.
3. Uma pessoa anti-social
4. Uma pessoa que reputadamente era uma bruxa e era cercada por uma “aura estranha.”
Em suma, qualquer um que sinta se encaixar nestas definições pode reclamar o título de “Bruxo” por direito, e feitiçaria, como exposto, é uma prática inerente ao título de “Bruxo”, embora não exclusiva daqueles que se chamam bruxos uma vez que existem vários outros caminhos espirituais que utilizam estas práticas, a exemplo doVoodu. Se nos fundamentarmos na história e mitologia, a Bruxaria é uma realidade poética que pertence à humanidade. Como o Nicholaj disse certa vez: “A bruxaria é tratada como uma parte importante e integrada de nossa herança como seres humanos. Dado o ritmo acelerado em que nosso mundo se torna cada vez mais cético e materialista, acabamos perdendo os valores tradicionais implícitos nos reinos invisíveis, descartados como supersticiosos.” Torna-se claro que qualquer pessoa pode reclamar o título e o caminho, e com isso se intui mudar este mundo doente. Eu suspeito muito daqueles que resistem a esta idéia protegendo este título com unhas e dentes.
CS: Qual é a ligação entre Bruxaria e Paganismo?
KMF: Uma idéia que tem crescido e se espalhado sem muito questionamento liga a figura da Bruxa a um obrigatório sacerdócio, ou seja, uma “Bruxa sacerdotisa de um culto Pagão ou Neopagão”. Contudo, esta ligação não encontra respaldo histórico ou mitológico até a criação da Wicca, no início da década de 50, por Gerald Gardner, que criou um híbrido capaz de abraçar tanto o ethos da Bruxaria e o ethos Neopagão.
CS: Você poderia falar um pouco do que é Paganismo e Neopaganismo?
KMF: O termo Paganismo originalmente designava um morador do campo, um “rústico”, em seu uso primário, e, no entanto, este termo abraçou várias outras definições, bem como a das tradições não abraâmicas nativas, que antecedem a chegada do Cristianismo na Europa. Lógico que esta é uma super-simplificação, tendo em vista que a história do termo é facilmente encontrada por aí e não vejo como poderia acrescentar mais sem perder o foco desta entrevista. O Neopaganismo, por sua vez, é a restituição ou mesmo a reconstrução destes cultos pagãos que, em algum ponto do tempo cessaram sua existência, deixando somente traços acadêmicos, literários e artísticos, sem uma linha de sucessão iniciática.
CS: Ao que você se refere como “ethos” da Bruxaria e qual é esta diferença de “ethos” com o Paganismo?
KMF: Ethos é palavra grega que agrega os valores, a ética, os hábitos e a harmonia de uma pessoa ou grupo. É o que faz a diferença entre os grupos: a identidade social. Não há como falarmos do que constituiu a figura da bruxa sem mencionarmos os rastros históricos. Uma das primeiras menções históricas que temos da bruxa é proveniente da Mesopotâmia, através dos tabletes de argila encontrados pelas escavações arqueológicas. Se formos observar o Maqlu, que é uma coleção de tabletes que reflete as crenças oficiais daquela região, as bruxas poderiam ser provenientes de qualquer camada social, e ainda que fossem, em sua maioria, estrangeiras, elas podiam também estar presentes em uma grande variedade de profissões, sendo encontradas, ainda, na profissão de exorcistas.
A “bruxaria” no Maqlu está sempre associada à “magia maléfica”, e é no épico de Enmerkar e Ensuhkesdann que vamos encontrar pela primeira vez a diferença entre a “mas mas” e a “um ma” como referência às bruxas que operam à favor ou contra o rei, o que as distinguiria como “benéficas” ou “maléficas”, é então lógico que isto já dependia do ponto de vista, fosse do rei vencedor ou do rei vencido. Este aspecto dual da bruxa pode ser encontrado, por exemplo, na oposição entre Malandanti e o Benadanti italianos, como descrito por Carlo Ginzburg[1].
Havia uma clara separação da figura da bruxa com a do sacerdócio oficial. Enquanto as bruxas claramente operavam com certos aspectos da deusaInanna (Vênus), os sacerdócios oficiais dos cultos aos deuses se encarregavam da “pureza” dos devotos frente aos deuses, combatendo, através de rituais de purificação, os efeitos dos bruxedos, considerados já naquela época, como o uso “ilegal” dos poderes divinos. Por “ilegal”, devemos entender “o que não era autorizado”, ou seja, sancionado pelos cultos estruturados a cada um dos deuses. É uma zona “cinzenta”, vamos assim dizer. Historicamente vamos encontrar a figura da bruxa ligada à necromancia e adivinhação (como a bíblica de Bruxa de Endor, por exemplo), às transformações (como Circe e Medeia), e aos feitiços de cordas, amuletos, bonecos e encantamentos dos mais variados, ou seja, não dá para desligá-la de sua característica mais proeminente: a arte da feitiçaria, de moldar a realidade através do conhecimento da natureza, da magia.
CS: Você quer dizer então que um Pagão não é um Bruxo?
KMF: Não. O que quero dizer é que qualquer pessoa que se dispuser a trabalhar “bruxaria” pode ser considerada uma “Bruxa”, inclusive um pagão, no entanto o contrário não é necessariamente aplicável. Historicamente sempre houve um consenso neste sentido, jamais do contrário como hoje alguns grupos fazem, tomando o termo de forma egoísta e mostrando uma agenda focada no “controlar”, ao invés do “informar”, ou ainda, construindo híbridos inexplicáveis que não encontram pares em qualquer lugar do mundo. Retornando ao ponto, um Pagão é aquele devoto de um deus cujo culto é antigo, pré-cristão, que é estruturado com regras, dogmas e doutrinas. Ele não opera em uma “área cinzenta” se estiver sancionado pelo seu culto. Um Neopagão, por sua vez, é um devoto de um deus cujo culto foi em algum lugar da história, extinto, ou seja, não possui uma linha de sucessão iniciática. Durante um processo de reconstrução estes aderentes podem abrir espaço para incorporar seus anseios, práticas e ensinamentos da maneira que acham mais acertados.
Uma característica muito visível nas reconstruções é que elas geralmente operam em uma forma de “multi-sacerdócio”, numa tentativa de ressuscitar todo um panteão que acaba falhando na especialização dos deuses, como podemos observar amplamente nos cultos pagãos originais. Esta idéia de “multi-sacerdócio” foi incorporada a uma forma específica de bruxaria (a Wicca), logo, esta obrigatoriedade sacerdotal em toda a Bruxaria não é procedente, mas uma falácia. O que fica claro em toda a história da humanidade é que o Bruxo, não importando qual é a religião vigente ou da moda, sempre operará nesta área cinzenta entre a crença religiosa e o que é proibida nela. É suficiente observar a prática das benzedeiras, que sempre gerou condenações por parte da Igreja Católica embora elas sempre se considerassem “boas cristãs”. O que aconteceu com a prática das benzedeiras foi simplesmente uma “importe” de práticas que pré-datavam o cristianismo para uma linguagem da religião oficial. É desta zona cinzenta que falo. Contudo, com a liberdade religiosa que encontramos hoje em dia, é de total escolha da Bruxa de aderir ou não à uma religião Pagã ou Neopagã, se esta escolha permite as operações nesta “zona cinzenta” ou não, ou ainda, se ela vai acatar as regras, ou não.
CS: Se entendermos Bruxaria desta forma, como poderia existir esta Bruxaria Tradicional, já que parece ser uma coisa estruturada?
KMF: O termo “Bruxaria Tradicional” foi cunhado pelo falecido Robert Cochrane em 1964, como uma forma de separar as práticas legadas das práticas criadas/repaginadas. Esta primeira referência surgiu no artigoWitchcraft Today, escrito para a revista Pentagram[2], e que mais tarde foi organizada no livro “The Roebuck in the Ticket, An Anthology of Robert Cochrane Witchcraft Tradition”[3], muito mais como uma forma de evitar a generalização de toda a bruxaria como se fosse unicamente a Wicca difundida por Gardner. Cabe então analisar sucintamente os termos “Bruxaria”, e “Tradicional” separadamente para que possamos entender exatamente do que se trata.
Por “Bruxaria” podemos compreender que se trata de ações que independem de religião ou localização no planeta, bastando a crença nos poderes invisíveis de deuses, espíritos, gênios, etc., que visem a transformação e/ou manipulação destas forças para alterar uma realidade, interna ou externa ao próprio operador. Seus métodos são pragmáticos, e somente as operações que realmente são eficientes são as que sobrevivem através dos tempos. É este o fator de consenso histórico, o que pode ser encontrado em estudos acadêmicos sobre a história factual da bruxaria, e que difere dos mitos dos atuais aderentes das “religiões” chamadas de “bruxas”.
Tradição é uma expressão do ethos de um grupo ou sociedade, composto de conhecimentos acumulados, crenças, valores e costumes. Ela é proveniente do latim “tradere, traditio, ou ainda traditionis”, que significa trazer, entregar, transmitir. Assim, ela transmite certo conteúdo que pode ser uma memória cultural, espiritual e material. Este conteúdo geralmente é um conjunto de idéias, recordações e símbolos que passam através de gerações. A Tradição, via de regra, é uma doutrina, uma cosmovisão e não um dogma. A partir de uma Tradição, é possível encontrar correlações com todas as outras, por mais diferentes que sejam suas origens, sem, no entanto perder a atenção os elementos que dão o contexto cultural dela, ou seja, suas similaridades e diferenças são importantes. A Tradição só não conhece fronteiras. Infelizmente em nossos dias é comum ater-se somente ao aspecto de legado, sem haver um critério específico no conteúdo ou qualidade deste legado.
Portanto, quando falamos de "Bruxaria Tradicional", estamos falando da defesa à multiplicidade das expressões tradicionais, reconhecendo os pontos em comum que todas elas possuem. Isto significa que é necessária umaperspectiva tradicional. É caminhar na circunferência de um círculo sem perder de vista o ponto, o centro, o eixo central de sua própria condição, o seu papel no mundo.
O termo "Bruxaria Tradicional" não deve ser confundido como uma única “tradição da terra”. Ele é um termo que abarca estas tradições, e, portanto, um bruxo tradicional, como não encara a "bruxaria" como uma religião a que se deva converter, fica livre para estudar e se submeter a iniciações em diversos cultos específicos a deidades que encontrarem ressonância com sua própria convicção e conexão espiritual, visando acumular conhecimento o suficiente para atingir seu ponto de iluminação. É uma questão de utilidade, de se estar equipado da melhor forma para atingir seus propósitos no mundo ou além dele...
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CS: E qual a diferença entre Bruxaria Tradicional e Bruxaria Hereditária?
KMF: É mais simples dar um exemplo: Se você é nascido e criado basco, você terá um conjunto de valores passados pela sua família. Ele é passado pelo sangue e pela palavra. Você pode se considerar um Bruxo Hereditário. Agora se eu sou “adotada” em sua família, eu sou uma Bruxa Tradicional: sou alguém que recebeu a “palavra”, ou seja, “a transmissão/tradição”. Não é incorreto um Bruxo Hereditário se chamar de Tradicional, pois ele também carrega a “tradição”, mas é incorreto um Bruxo Tradicional dizer ser um Bruxo Hereditário, por que não houve ali transmissão sanguínea. É uma questão de reconhecimento de parentesco.
CS: Um Bruxo Tradicional pode, então, misturar elementos de vários cultos em suas práticas?
KMF: Isto é parcialmente verdadeiro. Se tenho que trabalhar um feitiço, visualizo qual seria a melhor método para alcançar minha meta. Caso a decisão seja trabalhar com Voodu Haitiano, um culto bastante feiticeiro (como poucos) no qual sou iniciada, não misturo outros elementos senão os feitiços que já existem dentro desta tradição. Ou mesmo se decido trabalhar com Kimbanda, isto será feito somente dentro daquele contexto. Logo, se vou trabalhar um feitiço rural europeu, certamente vou fazer isto dentro de um círculo mágico dedicado ao patrono da minha tradição.
Nem todo Bruxo Tradicional é iniciado em vários cultos, mesmo sabendo que nada o impede disto. Isto é uma preferência pessoal, e não obrigatória. O que chamamos de “Bruxaria Tradicional”, com base na definição original deste termo é esta visão, esta perspectiva, esta liberdade de escolher as melhores “tecnologias”, ao entendermos que estas tradições se tocam pela similaridade mitológica e prática.
CS: Mas onde todas estas Tradições se tocam?
KMF: É aqui que entra a importância do estudo de religiões comparadas, não só nos mitos, mas em suas formas de culto. Se nos focarmos somente na mitologia, podemos mencionar a similaridade de poderes e mitos entre o deus ferreiro Hefesto, Tubal Caim, Ogun, Vulcano, Ptah, Brahmanaspati, Tchuang-tsé, Bung, etc. Todos eles, invariavelmente, falam de uma forja que é material e também simbólica, que representa todo o processo de formação, purificação e conformação do metal, um processo alquímico externo e interno. Ao mesmo tempo, eu não sou iniciada no culto de Ptah, e então eu jamais me atreveria em trabalhar uma petição com ele. Se tenho em mãos um feitiço onde ele figura, posso conseguir os elementos a ele consagrados através de um sacerdote de seu culto e operar em um feitiço com estes elementos. Historicamente as bruxas adoravam roubar hóstias e pedras de ara das igrejas para trabalhar seus feitiços e, até onde temos relatos, nenhuma delas teve que virar freira para isto. Desde que o Cristianismo penetrou na Europa revestindo muitos dos deuses pagãos, as práticas que lidavam com deidades também foram importadas para dentro daquele contexto. Eu realmente compreendo a finalidade deste processo de ressurreição de deuses pagãos, mas penso que enquanto os bruxos modernos estiverem muito ocupados em fazer oposição à ICAR e a todos os elementos pertencentes a ela, eles só demonstram que ainda não conseguiram discernir a completa dimensão espiritual da Bruxaria, nem mesmo a que seus próprios deuses podem fornecer.
CS: Bruxos Tradicionais são elitistas?
KMF: Em certo sentido poderíamos dizer que sim. Não conseguimos visualizar uma “bruxaria de massa”, desde que tradicionalmente os grupos são compostos de poucos elementos, ligados pelo “sangue” e “chamado”. Não há como expulsar uma pessoa da “família”, uma vez que ela está dentro. Aqueles que não compreendem este caráter “elitista” são justamente aqueles que enxergam bruxaria como uma espécie de “sistema” ou “ordem”, onde a possibilidade de expulsão de um membro realmente existe. Devo ainda ressaltar que nos últimos anos houve uma campanha gigantesca para associar o elitismo natural de uma família como se fosse algo esnobe. Isto está totalmente longe da realidade.
Eu poderia dizer que a família “de Mattos”, para citar um exemplo, é elitista. Ali só entra os que são “de Mattos”, tanto de sangue quanto os “adotados” na família. Ninguém iria achar isto uma forma de “esnobismo”. Isto foi causado muito mais por um sentimento ruim daqueles que se sentiram de, alguma forma, excluídos, não só das “famílias” de Bruxaria Tradicional quanto de suas complicadas perspectivas, quando observadas dentro de um contexto Pagão/Neopagão ou Wiccano. Sempre houve uma tendência, até mesmo tradicional, de preservar nossas práticas – tão incompreendidas – longe dos olhos daqueles que não pertenciam à nossa família.
CS: O que mudou para que você e outros Bruxos Tradicionais passassem a revelar o que antes era mantido secreto?
KMF: Eu não acho que revelei muito aqui, nada além da perspectiva interna da Arte, nem do que qualquer pessoa poderia em qualquer momento captar prestando atenção na história da Bruxaria e aprendendo a descartar os milhares de mitos que se desenvolveram nesta era de “religião fast-food”. Contudo, se hoje fiz questão de expressar isto tudo da maneira mais simplificada que pude, é porque já existem aqueles que querem institucionalizar a bruxaria, bem como a bruxaria tradicional como um todo estruturado, quasi-pagão, recheados de ideologias militaristas-salvacionistas, em defesa de valores que não correspondem nem ao mito e muito menos à realidade, com uma agenda de “controle de qualidade” que teima em desrespeitar e descaracterizar o verdadeiro significado do que é a Bruxa tradicionalmente.
Com a popularização desta corrente de pensamento de bruxa-sacerdote, aumentou também o número de pessoas preocupadas em obter o sacerdócio dentro de cultos e tradições que não possuem uma sucessão iniciática tradicional. Alguns, menos escrupulosos, talvez bem intencionados, talvez desesperados e perdidos no medo do anonimato, ou ainda visando um retorno financeiro, forjaram estas linhagens do dia para a noite. Houve alguma variação no processo de estudo para montar seus sistemas e seus diferenciais, e é possível observar que alguns conseguiram montar sistemas coesos, onde elementos de bruxaria são sustentados por fontes clássicas, outros, com elementos encontrados na literatura popular americana, e alguns têm a pequena constituição, simplesmente plagiando material. É este o pequeno universo “bruxo” da era web, onde falsidades são defendidas a unhas e dentes. É triste.
Como disse antes, acredito que a doutrina deva prevalecer, contrariamente às tentativas de se alimentar o dogma, quando se criam associações, federações, conselhos e igrejas.
CS: E qual é o seu ganho em revelar?
KMF: Para ser sincera não vejo ganho algum com isso. Eu não dirijo nenhuma associação, federação, conselho ou igreja: ou seja, não tenho a intenção de controlar ninguém com essas informações. Nossa “família” há tempos ultrapassou os limites de membros, bem como os geográficos, e nosso “reconhecimento” é internacional. Meu marido havia publicado livros sobre tema no exterior que foram extremamente bem recebidos, e aqui já há um traduzido e outros, de temas diversos, a serem traduzidos.
Por outro lado, sempre achei que a Bruxaria é um chamado do sangue, do espírito e da terra. Eu entendo que não somos os únicos apaixonados pela sabedoria da natureza, e são muitas as pessoas que chegam com o coração atribulado e a mente queimando pelas questões que alguns deixam vagar sem respostas, ou simplesmente com respostas que não correspondem com a realidade factual. Eu também vejo que existem muitas tentativas de pessoas querendo se tornar líderes usando falsas premissas e me chateia muito ver que estas falsas premissas fazem com que muita gente desista deste caminho tão maravilhoso que é a Bruxaria. Ultimamente ando tentando usar o veneno para fabricar um antídoto, ou seja, usando destas falsas premissas para indicar as premissas corretas, que encontra respaldo acadêmico (e não de copy/paste de materiais da internet), e então eu gostaria de agradecer às resistências pelas sugestões e idéias. Eu diria que revelo pela utopia, pela identificação com aqueles pouquíssimos que se dão ao trabalho de guiarem suas próprias vidas espirituais e que se recusam a fazer parte do rebanho.
CS: Percebi que você tenta fugir do emprego da palavra Religião. Poderia dizer o porquê?
KMF: Eu não acredito que possamos ligar o que nunca esteve desligado. Se continuamos respirando, “se somos”, como estaríamos desligados do Criador – seja ele/ela o nome que se der? Eu acredito que seja muito mais uma questão de lembrar do vínculo do que vincular. Gosto muito da expressão “Tradição” porque ela engloba todos os aspectos que considero importante na jornada humana, desde que parte da gênese ao cultural que se vivencia. Mas lógico, esta é uma opinião muito pessoal, nem sempre compartilhada por meus pares.
CS: Para finalizar, gostaria de perguntar se é possível para qualquer um abrir seu próprio grupo (Clã, Cuveen) de Bruxaria Tradicional.
KMF: Sim, e sem precisar de linhagens forjadas!
Definimos os quatro pilares essenciais da Bruxaria Tradicional como segue:
1 – Uma mundovisão tradicional
2 – Sucessão horizontal linear (horizontal)
3 – Ingresso espiritual (vertical)
4 – Valores tradicionais
Para o primeiro item é necessária a completa noção do que Tradição - e aqui eu indico firmemente os escritos de René Guenón. Para o segundo, o poder deve ser passado por uma pessoa que tenha real conexão espiritual, e isto nós temos abundantemente no Brasil, na figura que se expande da benzedeira à parteira, à médium clarividente e ao curandeiro. Para o terceiro, é necessário se fazer uma conexão direta com a terra, com os espíritos conectados a ela e saber trabalhar a verticalidade, ou seja, suas ligações divinas/celestes. Os valores tradicionais são os fundamentos do “ethos” do grupo em questão, e neste caso, talvez seja necessário mencionar os nossos para exemplificar: Verdade, Honra e Ancestralidade.
É bom deixar claro que quando falo de conexão com a terra, isto implica em se “adotar” uma terra para chamar de sua. Vale a do irmão espiritual, vale o parque nacional. O importante é criar uma “relação” com os espíritos de uma terra em particular, lembrando que cada terra tem “colorações diferentes” que vão influenciar no próprio poder do Bruxo.
Agora, antes de sair por aí “abrindo” clãs, o líder e fundador deve ficar avisado de que esta é uma grande responsabilidade, e, portanto, uma análise profunda de suas motivações deve ser considerada. Um verdadeiro líder, umMagister, deve ser a “pedra fundamental” do grupo, não buscando forçar um consenso, mas modelá-lo de acordo com os valores tradicionais. A marca de um verdadeiro líder é a humildade, e sabemos quando temos o líder certo quando temos que apontá-lo, e não simplesmente engoli-lo a seco, em especial quando ele parece ser justamente aquele que precisa de maior amadurecimento espiritual. Fuja destes, e, como sempre sugiro,questione sempre!
Katy de Mattos Frisvold é peregrina iniciada da Arte Tradicional em várias das manifestações nas quais ela se desdobra. Dentre as mais famosas, a Via Vera Cruz e o Lilium Umbrae Cuveen, a mais recente extensão doClan of Tubal Cain da Inglaterra. Atualmente, dedica seu tempo entre a profissão de tradutora de livros ocultistas, escrevendo esporadicamente para seu blog www.diablerie.com.br, e o dia a dia do campo. Mora em Extrema-MG com seu marido, o autor norueguês Nicholaj de Mattos Frisvold.
Bibliografia Recomendada:
Ankarloo, Bengt & Clark, Stuart (2004). Bruxaria e magia na Europa(todos os seis volumes), Editora Madras
Agrippa, Henry Cornelius (1531/2008) Três Livros de Filosofia Oculta. Editora Madras.
Cochrane, Robert & Jones, Evan John (Ed. Mike Howard). 2001. The Roebuck in the Thicket. Cappall Bann.
Cochrane, Robert & Jones, Evan John (Ed. Mike Howard). 2002. The Robert Cochrane
Frisvold, Nicholaj de Mattos (2010). Artes da Noite. Editora Rosa Vermelha
Frisvold, Nicholaj de Mattos (prev 04/2011). A Arte das Indomadas. Editora Rosa Vermelha Ginzburg, Carlo (1991). Ecstasies. Deciphering the Witches’ Sabbath. Penguin. NY
Guenón, René (1977). "A Crise no Mundo Moderno", Editorial Vega
Hutton, Ronald (1999). The Triumph of the Moon. Oxford University Press.UK
Jackson, Nigel (1996). Masks of Misrule. Capall Bann. UK
Summers, Montague (1945). Witchcraft and Black Magic. Rider & Co.London
Sussol, Max (1995). O Livro dos Benzimentos Brasileiros. DCL. SP.
Thorndike, Lynn (1929). A History of Magic and Experimental Science.
The Macmillan Walter, Philippe (2007). Christianity; The origins of a Pagan Religion. Inner Traditions.Vermont
The Macmillan Walter, Philippe (2007). Christianity; The origins of a Pagan Religion. Inner Traditions.
Weyer, Johann (1577/1991). Witches, Devils and Doctors in the Renaissance. Center for Medieval and Early Renaissance Studies. University of New York . NY
Wilby, Emma (2005) Cunning Folk and Familiar Spirits. Sussex Academic Press. UK
No Blog Todos os Clãs
Saudações a todos, eu recebi permissão para publicar a entrevista que o Draco do Blog Crux Sabbati fez com a Bruxa Tradicional Katy do Blog Diablerie, prometo que irei trazer a entrevista para o nosso Clã, mas antes disso quero disponibilizar uma entrevista que fiz com a mesma e que ficou muito interessante, e bem pessoal... Espero que gostem, pois a mesma foi feita com muito carinho!
KMF: Katy de Mattos Frisvold
Todos os Clãs: Idade KMF: Você não acha rude perguntar a idade de uma mulher? :D
Todos os Clãs: Nome Pagão
KMF: Eu tenho mais respeito aos nomes iniciáticos, e então prefiro não revelar. Nomear é ter poder sobre algo ou alguém. Contudo, as pessoas já me conheceram por apelidos tais como Tzillah, Mab e Qelimath.
A- O que é uma Bruxa especificamente:
Para abrir irei fazer três perguntas, que de certa forma são chaves...
KMF: Eu acho que já escrevi tanto sobre isto que me sinto esgotada ao me repetir. Mas vamos lá trocar toda a história e mitologia em miúdos: uma Bruxa é um ser estranho, que não se “molda” ao mundo civilizado, e embora possua um pé neste mundo civilizado, possui o outro no mundo natural. Exatamente porque está sobre esta cerca entre os dois mundos, consegue com certa facilidade ver um terceiro mundo, onde estão os gênios, elementais, os mortos e as deidades. Esta “terceira visão” costuma se manifestar muito cedo na vida das pessoas, o que acaba gerando uma personalidade mais refletida, introspectiva, e até uma espécie de deslocamento social. Bruxos que despertaram na infância não são pessoas muito populares. Aprendemos desde cedo a sermos procurados quando as pessoas têm problemas, e são estas mesmas pessoas que antes, ou às vezes depois, descartam nossa Arte como pura superstição, até que elas estejam no meio de uma nova enrascada. A sociedade não consegue nos entender porque nossa perspectiva sobre o mundo é diferenciada, rica em diversos aspectos. Não vivemos em um mundo completamente material, plano e linear, e costumamos não dar a mesma importância às coisas do que o resto da sociedade.
B- Qual o Grau de Importância de uma Bruxa para planeta?
KMF: Nenhuma, e ao mesmo tempo, toda. O planeta vai continuar se a humanidade desaparecer e então acho que primeiramente devemos ter a proporção certa do nosso tamanho. Por outro lado, o processo de cura que a humanidade terá que passar deve partir de pessoas conscientes, refletidas, e assim, acredito que todos os místicos, religiosos, espiritualistas, etc. – incluindo “bruxas” de todas as vertentes, possam ajudar a curar a humanidade “de dentro para fora”. É conveniente dizer que o trabalho começa por nós mesmos, cuidando de nossos jardins, de nossas vidas, e parando de encontrar a culpa nos outros. Se você está mal resolvido com a sua vida, como poderá ajudar a algo ou a alguém? Ninguém dá o que não tem para si. Bruxas são “solanáceas da civilização”. Somos cura e veneno, porque uma coisa não existe sem a outra.
C- Bruxas seriam agentes da Natureza?
KMF: Não. Todos nós SOMOS Natureza, mas falar que “representamos” a Natureza é um pouco forçado. Como disse antes, uma “Bruxa” é alguém que tem um pé na Natureza e outro na civilização. Meio bicho e meio gente. Gostamos do conforto que ambas oferecem. É assim que ganhamos perspectiva em ambos os mundos: o que é natural e o que o homem cria para si.
Todos os Clãs: Como foi sua infância?
KMF: Bem, este assunto é bem amplo. Minha infância foi muito dura em muitos aspectos e isso fez com que eu amadurecesse muito rapidamente. Eu tinha um pai difícil de lidar e uma mãe que era muito doente. Tenho três irmãs, todas mais novas do que eu, e lógico, sempre sobrava a tarefa de olhar por elas naquele universo de dificuldades. Todas as irmãs – as quatro, tinham grande facilidade de ver e ouvir espíritos e isto sempre gerou um bocado de medo. Por outro lado, o fato de nunca ter sido obrigada a me converter a uma religião e de ter à mão uma farta literatura espírita – geralmente através de minha avó que também possui os mesmos dons – ajudou muito nesta fase. Cresci lendo muito porque esta era a única “fantasia” que a realidade permitia. Eu fui a várias missas da Igreja Católica Apostólica Romana, mas no período em que freqüentei, ela não me ofereceu qualquer resposta satisfatória sobre aqueles fenômenos que experimentávamos. Apesar do pai “difícil”, foi através dele que pisei pela primeira vez em um terreiro de Candomblé, que pude vivenciar a Kimbanda, que ouvi falar da Maçonaria, etc, foi através dele que pude lidar com as visões... Da parte da minha mãe, meus avós eram conselheiros espirituais da pequena comunidade japonesa em que viviam: meu avô rezava missas de sua religião, e minha avó era uma hábil parteira e professora de Ikebana. Comecei a trabalhar aos 12 anos de idade. Este foi o último ano da minha “infância”. Hoje minha mãe é terapeuta holística, e ela me diz que sofreu até compreender que sua missão era justamente aquela exercida pelos seus pais. Eu entendi desde criança que os dons chegam com um preço a ser pago.
KMF: Olha, eu acho que não mudaria nada. Cada obstáculo que tive na vida me fortaleceu e faz parte de quem eu sou. Sabedoria é uma questão de aceitação dos obstáculos como forma de obter conhecimento, o que gerará, por sua vez, mais sabedoria. Temos que aprender e seguir adiante, tomando as rédeas de nosso próprio destino. Geralmente o problema é exatamente não conhecermos nosso destino, porque não sabemos de onde viemos e não reconhecemos nossos ancestrais. Uma vez que este reconhecimento ocorre, a vida fica muito mais simples. Há um ditado tradicional que diz o seguinte: “Se você não sabe de onde vem, nem para onde vai, qualquer caminho servirá”.
Todos os Clãs: Você é uma Bruxa que foi iniciada e treinada em algumas vertentes mágicas, poderia nos falar sobre?
KMF: Eu fui muito afortunada com oportunidades espirituais. Mas não foi sempre assim. Como a maioria das pessoas, enfrentei portas fechadas, charlatões, e uma série de conflitos, internos e externos, na minha busca espiritual. Não foi sem muito trabalho interno – o principal trabalho - que finalmente fiquei pronta para que tudo isto se abrisse na hora certa. Por diversas vezes, desde que comecei minha busca com sinceridade, recebi iniciações que não esperava receber. Elas simplesmente “caíam em minhas mãos”. Isto contrasta muito com o período que passei implorando aos deuses que este caminho fosse aberto. No final das contas acabei me casando com outro bruxo muito mais conectado, que já havia circulado ordens ocultistas internacionais de renome, e que me apresentou a Bruxaria Tradicional entre outras tantas coisas. Como sei muito bem da dificuldade que existe em encontrar estas portas, acho problemático revelar qualquer outras que não sejam de conhecimento já público. Isto porque gera uma tremenda resistência da parte de muitas pessoas, que não entende a função da iniciação como uma ferramenta de se conectar a uma determinada ancestralidade (ou ancestralidades). Iniciação não confere a ninguém mais caráter, mas te dá um início e te provê das ferramentas necessárias para esta jornada.Das que são de conhecimento público, eu posso falar. Eu comecei com Wicca, um assunto que vim a retomar mais tarde, e parti para Obeah, (a feitiçaria de Trinidad Tobago), depois de casada me encantei com o culto de Orixás da maneira em que é feito na Nigéria (bem distante do Candomblé), e fui iniciada primeiramente para Oxum, e mais tarde para Ifá e Iyami. Neste meio tempo, recebi o Ason em Voodu Haitiano de uma casa tradicional haitiana, e também as tão esperadas iniciações na Wicca Gardneriana e Alexandrina. Fui iniciada em algumas ordens ocultistas (de magia cerimonial) porque sempre quis acessar seus preciosos materiais, alguns de incrível antiguidade, e também recebi algumas ordenações que provaram ser muito práticas. Quando fundamos a Via Vera Cruz, buscávamos desenvolver um foco de poder que abraçasse as diversas correntes de poder e sabedoria que fluíam de nós mesmos e de outros que vinham com suas próprias correntes, e foi desta forma em que a Via acabou abraçando “parentes” italianos, bascos, ingleses, eslavos, etc. Foi assim que o Clan of Tubal Cain também entrou em nossas vidas. Temos muito orgulho de ter realizado isto em solo brasileiro, desde que é uma terra que tem o talento natural de dar as boas vindas a qualquer povo e tradição.Não me esqueço jamais o início de tudo isto: meu caminho na Bruxaria começou com uma singela “auto-iniciação”, que mais tarde aprendi que se tratava de uma “auto-dedicação”. Hoje sei que ninguém “se” inicia porque iniciação tem que ocorrer horizontalmente e verticalmente. Ou seja, pelos ancestrais e/ou deuses.
Todos os Clãs: Você é casada com grande escritor Bruxo, esse mesmo que escreveu diversos títulos inclusive “Invisible Fire” e “Artes da Noite”, como é viver em uma família mágica? Como vocês se conheceram?KMF: Eu já havia obtido um resultado mágico absurdamente maravilhoso: consegui sair da loucura de Sampa para morar em Atibaia, empregada na mesma empresa que trabalhava. Como este “interior” não era tão longe de Sampa, eu estudava magia com um professor particular, e ele estava conectado ao Nick justamente pelo vínculo espiritual que eu buscava, a Obeah. Em uma visita do Nick este professor propôs que ele conhecesse um pouco da nossa Natureza – algo complicado de se ver em Sampa. Como eu era uma dos poucos alunos que falava inglês e morava em uma área verdejante, fui convidada a “ciceronear” aquele que mais tarde se tornou meu marido. “Piramos” um pelo outro já no dia em que nos conhecemos. Casamos-nos seis meses depois e continuamos loucos um pelo outro.Viver com uma família mágica é uma benção. Aprendemos muita coisa dentro da própria família. É muito confortável porque todos estão focados no mesmo objetivo, e ninguém se sente só porque cuidamos uns dos outros. Cada novato possui um tutor, e a velocidade em que ele se desenvolve no caminho sempre depende dele próprio, das relações que ele desenvolve com seu tutor e com a família, e lógico, de sua sintonia com o ponto de poder. Entrar na família é mais simples do que se pensa, receber o empowerment é um pouco mais duro, e sair da família é simplesmente impossível, o que dá uma segurança tremenda não só à família quanto ao próprio novato.
Todos os Clãs: O que você falaria para as novas e novos Bruxos que “Despertam” no século 21?
KMF: Para os muito jovens, que não se adiantem. Sempre há tempo para entender e ter certeza das renúncias que fazemos e dos compromissos que firmamos. Acho que isto seja importante comentar por que existem muitos adolescentes que chegam a estas vias esperando efeitos especiais e acabam presos em armadilhas emocionais dentro de pseudo-religiões. Para os mais velhos, que reflitam no fato de todos termos duas orelhas e dois olhos, e apenas uma boca. Quem quer aprender não sai “peitando” quem sabe para aprender as coisas sangradas no tapa. Com certa constância vejo iniciantes e pessoas menos experientes incapazes de reconhecer um ensinamento, de dar valor ao professor ou até mesmo de agradecer.
Todos os Clãs: Nos últimos anos tem havido uma certa disputa entre “Bruxas” de varias tradições, credos, preceitos... Aqui no Brasil! O que de alguma forma caracteriza uma “Guerra de Bruxas” no seu ponto de vista como pessoa, bruxa... Qual o motivo disso? Se tivesse ao seu alcance fazer algo que acabaria com tal “Guerra de Bruxas” o que você faria?
KMF: Eu compreendo o orgulho e carinho que as pessoas possuem de suas próprias tradições, mas é evidente que quanto menor a tradição, quanto menos relevante ela é no esquema geral e quanto menos sábio é seu mestre, mais confusões são arranjadas a fim de obter-se alguma notoriedade e respeito. É como se estas pessoas vivessem em um mundo onde é necessária a resistência, a oposição a algo ou alguém. Elas precisam de um Diabo, um bode expiatório. Este é o maior gerador de guerras, não só no meio virtual, mas bem reais, com ataques mágicos. Porém, é uma minoria que sabe atacar magicamente, que realmente tem talento para isto, o que é de certa forma um pouco divertido de se observar. É aqui que vemos aqueles que dizem as palavras certas, mas são incapazes de conjurar o que quer que seja. Eu aprendi, por exemplo, que caráter é a verdadeira chave do poder. Mas quantos destes que erguem os “flames” têm isso? Muita gente compra uma “guerra bruxa” por puro sentimento de inferioridade, achando que é o outro que se sente superior, arrogante ou elitista. Outros entram no arrastão dos outros, sem compreender os reais motivos por trás das palavras.Bem, sobre o que eu “faria”, eu acho que já faço: cuido do meu “jardim”, recebo bem aqueles que vêm me procurar com mente e corações abertos, escrevo um bocado de ensaios para ver se a NOSSA consciência se eleva... e quem quiser mudar, que fique a vontade. Eu penso que é uma questão de identificar o verdadeiro inimigo, o opositor dentro de nós mesmos, de paramos de lutar contra a “galhada” que os outros querem nos dar. Aqueles que nos apontam os dedos estão apontando três de volta a eles mesmos, e às vezes somos apenas um reflexo de suas próprias feiúras, de suas próprias fraquezas e visões distorcidas da vida. A diferença está no “engajar”, ou dar importância àquela criatura que está pedindo por isto. É saber escolher, e decidir se esta pessoa é digna ou não de ser seu aprendiz – seja pelo amor ou pela dor que só o amor permite. Existem certas generosidades que são extremamente doloridas.
Todos os Clãs: Poderia fazer algumas considerações finais?
KMF: Sim, com duas outras palavras. Aos mestres e sacerdotes, que se lembrem que uma iniciação é um início e não o “coroamento” de ninguém. Somos eternos aprendizes. Se querem um grupo unido pela paz, amor e confiança, sejam os primeiros a agir de acordo. Não cobrem de seus aprendizes o que vocês não são capazes de demonstrar. Gentileza é tudo! Aos que estão na busca de uma “família bruxa”, que não tenham pressa para não caírem em qualquer arapuca. Caráter é tudo, e às vezes o caminhar solitário pode nos levar muito mais longe.
Todos os Clãs: Para quem quiser entrar em contato com você, como proceder?
KMF: Bem, eu não me escondo. Escrevo no meu blog www.diablerie.com.br, dou consultas mensalmente em um espaço da cidade de São Paulo (podem ser agendadas pelo telefone 11-5589-5375 ou 5594-7060). E-mails de pessoas interessadas em bruxaria eu normalmente repasso diretamente para a Chanceler da Via, pois não é minha função fazer os primeiros contatos, à menos que tenha um interesse pessoal naquela pessoa especificamente. Mas em todo caso, aqui está meu endereço de email: qelimath@gmail.com
O Todos os Clãs agradece sua participação, eu também.