Iblis, do Livro das Natividades (Kitâb al-Mawalid), de Abû Ma'shar. Esta versão é do Cairo, Século XV.
34 - Outro pássaro disse à Poupa:
“Acredito haver conquistado para mim toda a perfeição possível, e conquistei-a à força de penosas austeridades. Uma vez que obtive aqui o resultado que almejava, é-me difícil sair à cata do lugar de que falas. Já conheceste, acaso, alguém que tenha deixado um tesouro para vaguear dificultosamente pelas montanhas, no ermo e através das planícies?”
Replicou a Poupa:
“Ó diabólica criatura, cheia de vaidade e presunção! Ó tu, que estás mergulhado no egoísmo! Ó tu, que sentes tamanha aversão pelo fazer! Foste seduzido pela imaginação e estás agora distante das coisas divinas. O corpo de desejo domina-te o espírito; o Diabo roubou-te o cérebro. O orgulho apossou-se de ti. A luz que julgas ter no Caminho Espiritual não passa de uma chama bruxuleante. O teu amor às coisas espirituais é imaginário. Não te deixes seduzir pelo tênue clarão que vês. Enquanto o teu corpo de desejo te enfrentar, tem tento em ti. Precisas combater esse inimigo com a espada na mão. Quando se mostra uma luz falsa, vinda do teu corpo de desejo, olha para ela como se fosse o aguilhão de um escorpião, para o qual deves usar salsa. Não te desesperes por causa da escuridão do caminho que te mostrarei e porque a luz que ali verás não te incutirá a pretensão de seres companheiro do sol. Enquanto continuares a viver no orgulho da vida, ó meu querido, tuas leituras e teus esforços mofinos não valerão um óbolo. Só depois de renunciares ao orgulho e à vaidade serás capaz de deixar esta vida sem pesar. Enquanto seguires aferrado à presunção, à ufania e às coisas da vida exterior, cem flechas vexativas te ferirão de todos os lados.
O xeque Abu Bekr de Nishapur
O xeque saiu, um dia, do mosteiro em companhia dos discípulos, montado no seu burro, enquanto os companheiros iam a pé. De repente, o burro peidou estrepitosamente, fazendo que o xeque desse um grito e rasgasse a khirka. Os discípulos miraram-no, surpresos, e um deles perguntou-lhe por que agira desse modo. O xeque explicou:
“Quando olhei à minha volta e vi o número dos meus seguidores, pensei comigo mesmo: ‘Agora sou realmente igual a Bayazid. Hoje me acompanham inúmeros discípulos fervorosos; assim sendo, amanhã estarei cavalgando, sem dúvida, com glória e honra, na planície da ressurreição’ “. E, logo, ajuntou: “Foi então, ao presumir ser esse o meu destino, que o meu burro fez aquele barulho aparentemente impróprio, que ouvistes e com o qual queria dizer: ‘Eis aqui a réplica que dá um burro a quem tem tais pretensões e pensamentos tão vãos!’ Daí que o fogo do arrependimento se abatesse tão de repente sobre minha alma, e minha atitude se modificasse, e minha posição imaginária caísse ao chão feita em pedaços”.
Ó tu, que mudas a cada momento, és como o faraó até as raízes dos cabelos. Mas se destruíres em ti mesmo o ego por um só dia, tua escuridão iluminar-se-á. Nunca digas a palavra “eu”. Tu, por causa dos teus “eus”, incorreste numa centena de males e serás sempre tentado pelo Diabo.
Deus fala a Moisés
Um dia, em segredo, disse Deus a Moisés:
“Vai pedir conselho a Satanás”.
Moisés foi visitar Iblis e, quando se aproximou dele, pediu-lhe um conselho.
“Lembra-te sempre”, disse Iblis, “deste axioma singelo: nunca digas ‘eu’, para que nunca venhas a ser como eu.”
Enquanto subsistir em ti um pouco que seja de egoísmo, participarás de infidelidade. A indolência é uma barreira no caminho espiritual; mas se a conseguires transpor, uma centena de “eus” quebrará a cabeça num momento.
Toda gente vê tua vaidade e presunção, teu ressentimento, inveja e cólera, mas tu mesmo não os vês. Há um canto do teu ser cheio de dragões e, por negligência, te entregas a eles; e os animas e acarinhas dia e noite. Assim, se tens consciência do teu estado interior, por que continuas tão indiferente?
O dervixe que possuía uma bela barba
No tempo de Moisés havia um dervixe que passava os dias e as noites em estado de adoração, conquanto não tivesse nenhuma sensibilidade pelas coisas espirituais. Possuía uma longa e bela barba e, muita vez, quando estava rezando, interrompia as orações para penteá-la. Um dia, topando com Moisés, abeirou-se dele e pediu:
“Ó paxá do monte Sinai, roga a Deus, por favor, que me diga por que não experimento nem satisfação espiritual nem êxtase”.
Na outra vez que Moisés escalou o Sinai, falou a Deus a respeito do dervixe, e Deus disse, em tom de desaprovação:
“Se bem tenha procurado união comigo, esse dervixe está constantemente pensando na sua longa barba”.
Quando desceu, Moisés repetiu ao sufi as palavras de Deus. Ouvindo-as, o sufi pôs-se a arrancar a barba, chorando amargamente. Nisso, Gabriel foi ter com Moisés e lhe disse:
“Ainda agora o teu sufi está pensando na barba. Não pensou em outra coisa enquanto rezava, e sente-se ainda mais apegado a ela agora que a está arrancando!”
Ó tu, que cuidas haver deixado de te preocupar com a tua barba, estás mergulhado num oceano de aflição. Quando puderes pensar nela com alheamento, terás o direito de cruzar, navegando, esse oceano. Mas se nele mergulhares com a tua barba, ser-te-á difícil sair dele.
Outra anedota de um homem com uma longa barba
Um bêbado que tinha uma barba comprida e bonita caiu por acidente numa lagoa funda. Ao vê-lo cair, um homem que passava gritou:
“Tira a sacola que tens na cabeça!”
O homem que se afogava contestou:
“Isto não é sacola, é a minha barba, e não é ela que me atrapalha”.
Mas o homem que estava passando insistiu:
“Seja o que for, livra-te dela, ou acabarás te afogando”.
Ó vós, que sois como bodes, e não vos pejais das vossas barbas enquanto tiverdes um corpo de desejo e um demônio para amarrar-vos, o orgulho de faraó e de Hanna será o vosso quinhão. Voltai as costas para o mundo, como fez Moisés, e sereis capazes de agarrar o faraó pela barba e segurá-lo com firmeza. Quem percorre o caminho da luta consigo mesmo deve encarar o coração apenas como shish kabab. O homem que tem o regador não espera chover.




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