( Turkish Bath with Self Portrait, 1918 -by Charles Demuth)
33 - Outro pássaro disse à Poupa:
“Enquanto eu viver, o amor do Ser Eterno me será caro e agradável, e nunca deixarei de pensar nele. Tenho convivido com todas as criaturas vivas e, longe de me haver apegado a elas, não me identifiquei com nenhuma. A loucura do amor me ocupa todos os pensamentos, de modo que, para mim, o amor é bastante. Mas esse amor não convém a todos, e agora chegou o momento em que devo traçar uma linha de minha vida para poder aceitar uma taça de vinho de meu amado; nesse instante, os olhos do meu coração se tornarão luminosos graças à sua beleza, e minha mão tocará o seu pescoço como penhor da união.”
Replicou a Poupa:
“Não é com essas pretensiosas fanfarronadas que alguém pode vir a ser hóspede respeitado do Simurgh do Cáucaso. Não exaltes tanto o amor que acreditas sentir por ele, pois nem todos poderão possuí-lo. Cumpre que o vento da boa fortuna erga o véu do mistério para que o Simurgh te atraia a si e para que te sentes com ele em seu harém. Se quiseres chegar ao sítio sagrado, precisas, primeiro que tudo, esforçar-te por ter um conhecimento das coisas espirituais, pois, de outro modo, o teu amor ao Simurgh se transformará em tormento. Para a tua verdadeira felicidade, será forçoso que o Simurgh também te ame”.
O sonho de um discípulo de Bayazid
Na mesma noite em que Bayazid partiu do palácio deste mundo, um discípulo o viu em sonhos; e perguntou a esse excelente pir como conseguira escapar de Munkir e Nakir. Respondeu-lhe o sufi:
“Quando esses dois anjos me interrogaram a respeito do Criador, eu lhes disse: ‘A pergunta não pode ser respondida com precisão, pois, se eu disser: Ele é meu Deus, e isso é tudo, estarei apenas expressando um desejo meu; será melhor que volteis para Deus e lhe pergunteis o que ele pensa de mim. Se ele me chamar seu servo, sabereis que assim é. Caso contrário, sabereis que ele me abandona aos laços que me prendem. Visto não ser fácil obter a união com Deus, de que me servirá chamar-lhe Meu Senhor? Se ele não aceita o meu serviço, como poderei pretender que seja meu amo? É verdade que inclinei a cabeça, mas também se faz mister que ele me chame seu escravo’”.
Mahmud na sauna
Certa noite, Mahmud, que se sentia deprimido, entrou disfarçado no hammam. Um jovem atendente deu-lhe as boas-vindas e fez os arranjos necessários para que ele pudesse transpirar confortavelmente sobre os carvões ardentes. Feito isso, deu ao sultão um pedaço de pão seco, que ele comeu. Disse, então, o sultão para si mesmo: “Se este atendente se tivesse recusado a receber-me, eu teria mandado cortar-lhe a cabeça”. Por fim, o sultão declarou ao jovem que desejava tornar ao seu palácio. Sobreveio o moço:
“Comestes da minha comida, conhecestes a minha cama e fostes meu hóspede. Terei sempre imenso prazer em receber-vos. Conquanto, na verdade, sejamos feitos da mesma substância, como, no que concerne às coisas externas, podeis ser comparado a alguém de tão baixa condição?”
O sultão agradou-se tanto da resposta que voltou várias vezes a ser hóspede do atendente. Na última ocasião, ordenou-lhe que fizesse um pedido.
“Se eu, um mendigo, fizer um pedido”, disse o atendente, “o sultão mo negará.”
“Pede o que quiseres”, instou com ele o sultão, “nem que seja deixar o hammam para tornar-se rei.”
“Meu único pedido”, confessou o jovem, “é que o sultão continue a ser meu hóspede. O atendente de banho sentado ao vosso lado numa sauna é mais feliz que o rei num jardim sem vós. Visto que a boa fortuna me visitou por obra da sauna, seria ingratidão de minha parte deixá-la. Vossa presença iluminou este lugar; que mais posso pedir além de vós?”
Se amas a Deus, busca também ser amado por ele. Mas ao passo que um homem procura esse amor, sempre velho e sempre novo, outro deseja dois óbolos de prata do tesouro do mundo; procura uma gota d’água quando poderia ter o oceano.
Os dois aguadeiros
Encontrando-se com um colega, um aguadeiro pediu-lhe um pouco da sua água. O outro retrucou-lhe:
“Ó tu, que és ignorante das coisas espirituais, por que não bebes a tua própria água?”
E o primeiro respondeu:
“Dá-me um pouco da tua água, ó tu que tens o conhecimento espiritual, pois estou enjoado da minha”.
Adão estava farto das coisas familiares, e por isso decidiu provar o trigo, coisa nova para ele. Vendeu as coisas velhas para comprar um pouco de trigo. Tornou-se injusto. Chegou o amor e bateu-lhe à porta, à sua procura. Quando o relâmpago do amor o destruiu completamente, tanto as coisas velhas quanto as novas desapareceram e nada sobrou! Mas não é dado a todos enfararem-se de si mesmos e morrerem completamente para a vida antiga.




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