Diablerie

Perspectivas tradicionais do mundo, na contra-corrente... e fora da caixinha. Bruxaria Tradicional, Ocultismo, Magia, Religião, Ifá, Astrologia, Horóscopo, Bruxa*, Bruxo*



35 - Outro pássaro disse à Poupa:

“Dize-me, ó tu, que és famosa no mundo inteiro, que devo fazer para sentir-me contente nesta viagem? Se mo disseres, minha mente se sentirá mais aliviada, e estarei disposto a deixar-me conduzir nesta empresa. Com efeito, a direção é necessária para não ficarmos apreensivos. E como só desejo aceitar a direção do mundo invisível, repilo, com boas razões, a falsa direção das criaturas terrenas”.

“Enquanto viveres”, replicou a Poupa, “contenta-te com te lembrares de Deus, e mantém-te em guarda contra conversas indiscretas. Se o puderes fazer, os cuidados e tristezas da tua alma se desvanecerão. Vive contente em Deus; gira, por amor dele, como o domo do céu. Se souberes de algo melhor, dize o que é, ó pobre pássaro, para que possas ser feliz ao menos por um momento.”


A anedota de um amigo de Deus

Um amigo de Deus que estava morrendo pôs-se a chorar, e os que lhe faziam companhia perguntaram por que chorava.

“Choro como as nuvens da primavera”, disse ele, “porque chegou o momento em que devo morrer e estou perturbado. Se meu coração já está com Deus, como posso morrer?”

“Se teu coração já está com Deus, terás uma boa morte”, acudiu um dos presentes.

Replicou o sufi:

“Como pode vir a morte a quem está unido a Deus? Se já estou com ele, minha morte parece impossível!”

Quem se contenta com existir como partícula do grande todo perde o egoísmo e torna-se livre. Está em contentamento com o teu amigo, como a rosa no cálice.

Anedota alegórica

Disse um homem aperfeiçoado:

“Por setenta anos trabalhei o meu espírito e agora estou em estado de êxtase, contentamento e felicidade, e nele participo da Majestade Soberana, unido à própria Divindade. No que te concerne, enquanto te ocupas em procurar as falhas dos outros, como provarás a alegria do mundo invisível? Se procuras falhas com olhos minuciosos, como verás as coisas do mundo interior? Quando se trata dos erros alheios, és capaz de dividir ao meio um fio de cabelo, mas olhas para os teus com olhos de cego. Confessa tuas próprias faltas e, por mais culpado que sejas, Deus se amerceará de ti”.

Os dois bêbados

Um homem que se excedia no beber chegava amiúde a perder não só o juízo mas também o respeito próprio. Certo dia, um amigo encontrou-o nesse estado deplorável, sentado no meio da rua. Arranjou um saco, colocou-o dentro dele, enfiando-lhe primeiro os pés, pôs o saco às costas e guiou para casa. No caminho, apareceu outro bêbado, cambaleando, sustentado por um companheiro. O homem cuja cabeça pendia para fora do saco despertou e, vendo o outro naquele estado, disse, em tom repreensivo:

“Ah, infeliz, no futuro bebe dois copos de vinho a menos, e serás capaz de andar como eu estou andando -  livre e só”.

Nosso próprio estado não é diferente. Vemos faltas porque não amamos. Se tivéssemos alguma compreensão do verdadeiro amor, por menor que fosse, as faltas das pessoas à nossa volta nos pareceriam boas qualidades.


O apaixonado e sua amante

Um jovem, valente e impetuoso como um leão, esteve, durante cinco anos, apaixonado por uma mulher. Num dos olhos da sua beldade havia uma manchazinha, mas o amante, quando admirava a beleza da amada, nunca a via. Como poderia o homem, tão apaixonado, reparar num minúsculo defeito? Com o tempo, todavia, o amor começou a diminuir e ele reconquistou o domínio de si mesmo. Foi então que notou a mancha, e perguntou à mulher como aparecera aquilo. E ela:

“Isso apareceu na ocasião em que teu amor principiou a esfriar. Quando o teu amor por mim se tornou defeituoso, meu olho se tornou defeituoso para ti”.

Ó cego de coração! Por quanto tempo ainda continuarás a procurar as faltas alheias? Forceja por ter consciência das coisas que escondes com cuidado. Quando vires tuas faltas em toda a sua hediondez, não te preocuparás tanto com as dos outros.

O policial e o bêbado

Um policial derrubou, com um murro, um homem embriagado, que lhe disse:

“Por que te deixas levar por tamanha paixão? Estás praticando um ato ilegal. Não estou fazendo mal a ninguém, mas tu te confundes com a embriaguez e a jogas na rua. Estás muito mais embriagado do que eu, embora ninguém se dê conta disso. Portanto, deixa-me em paz e clama por justiça contra ti mesmo”.

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