(o manto de José é apresentado aos pais pelos seus irmãos)
31 - Outro pássaro disse à Poupa:
“Se o rei de que falamos é justo e verdadeiro, Deus também nos deu honestidade e integridade; e jamais careci de justiça no trato com os outros. Quando se encontram essas qualidades num homem, que lugar ocupará ele no conhecimento das coisas espirituais?”
A Poupa retorquiu:
“A justiça é o rei da salvação. O justo está a salvo de todos os tipos de erros e futilidades. É melhor ser justo do que passar a vida inteira nas genuflexões e prosternações do culto exterior. Nem a liberalidade se iguala, nos dois mundos, à justiça exercitada em segredo; mas quem professa a justiça abertamente achará difícil não se tornar um hipócrita. Quanto aos homens do Caminho espiritual, não pedem justiça a ninguém, mas recebem-na generosamente de Deus”.
Uma anedota do imã Hambal
Ahmad Hambal era o imã do seu tempo, cujo mérito excedia todos os louvores. De uma feita, desejando descansar dos estudos e do cargo, saiu à rua para falar com um homem muito pobre. Alguém que o viu censurou-o, dizendo:
“Não há ninguém tão ilustrado quanto vós, e não tendes precisão das opiniões de outro homem; a despeito disso, perdeis tempo com um pobre miserável que anda descalço e com a cabeça descoberta”.
“É verdade”, conveio o imã, “que conquistei a bola de pólo no hadis e na sunna, e que tenho mais conhecimentos do que esse homem; mas, no que concerne à compreensão, ele está mais perto de Deus do que eu.”
Tu, que és injusto por ignorância, reflete, pelo menos por um momento, na integridade dos que estão no caminho do espírito.
O rajá indiano
O sultão Mahmud certa vez aprisionou um velho rajá, que, experimentando o amor de Deus, fez-se muçulmano e renunciou aos dois mundos. Sentado a sós na tenda, deixou-se absorver inteiramente por esses sucessos e começou a verter lágrimas amargas e a despedir suspiros de desejo — de dia mais do que de noite, e de noite mais do que de dia. Finalmente, inteirado disso, Mahmud mandou chamá-lo:
“Não chores nem te lamentes”, disse-lhe, “és um rajá, e eu te darei uma centena de reinos por aquele que perdeste”.
“Ó padixá”, replicou o hindu, “não choro pelo meu reino nem pela minha dignidade perdida. Choro porque, no dia da ressurreição, Deus, o detentor da Glória, me dirá: ‘Ó homem desleal, semeaste contra mim a semente do insulto. Antes de Mahmud te atacar, nunca pensaste em mim. Só quando tiveste de jogar o teu exército contra ele e perdeste tudo minha lembrança te acudia. Crês que isso é justo?’ Ó jovem rei, é de vergonha que choro em minha velhice.”
Atenta para as palavras da justiça e da fé; atenta para os ensinamentos do Divã dos Livros Sagrados. Se tens fé, empreende a viagem para a qual te convido. Mas o que não figura no índice da fidelidade seja encontrado no capítulo da generosidade!
O guerreiro muçulmano e o cruzado cristão
Um muçulmano e um cristão estavam lutando quando chegou o momento, para o muçulmano, de fazer suas orações, de sorte que ele, orgulhoso, pediu ao cristão que lhe concedesse uma trégua. O cruzado concordou, e o muçulmano, afastando-se, fez suas orações. Quando voltou, reiniciou-se o combate com. renovado vigor. Pouco depois, por seu turno, o cruzado solicitou uma pausa para poder dizer as suas preces. Sendo-lhe atendido o pedido, ele também se afastou e, escolhendo um local apropriado, prosternou-se no pó diante do seu ídolo. Quando o muçulmano viu o adversário de cabeça baixa, disse a sós consigo: “Esta é a minha oportunidade de lograr a vitória”, e veio-lhe a idéia de golpeá-lo à traição. Mas uma voz interior recriminou-o: “Ó homem desleal, que pretendes trair o teu compromisso, é assim que manténs a tua palavra? O descrente não sacou da espada contra ti quando lhe pediste uma trégua. Não te lembras das palavras do Corão: ‘Cumpre fielmente tuas promessas’? Visto que um infiel foi generoso contigo, não te mostres inferior a ele. Ele agiu bem, queres agir mal. Faze-lhe o que ele te fez. Serás tu, muçulmano, indigno de confiança?” Conteve-se o muçulmano. Torturado pelo remorso, viu-se banhado em lágrimas da cabeça aos pés. Quando o cruzado deu tento do seu pranto, perguntou-lhe a razão dele.
“Uma voz celestial”, explicou o muçulmano, “censurou-me por não ter sido leal contigo. Vês-me neste estado porque fui vencido pela tua generosidade.”
Ouvindo-o, o cristão despediu um grande grito e disse:
“Já que Deus pode mostrar-se favorável a mim, seu inimigo declarado, e censurar seu amigo por deslealdade, como poderei persistir na infidelidade? Expõe-me os princípios do Islam para que eu possa abraçar a verdadeira fé e, lançando de mim o politeísmo, adotar os ritos da lei. Oh, como deploro a cegueira que me impediu, até agora, de reconhecer um Mestre assim!”
Ó tu, que deixaste de procurar o verdadeiro objeto dos teus desejos e careces grosseiramente da fé que lhe é devida! Creio que virá o momento em que, na tua presença, o céu rememorará todos os teus atos, um por um.
José e seus irmãos
No tempo da fome, os dez irmãos de José realizaram a longa viagem ao Egito. José recebeu-os, com o rosto coberto por um véu, e eles, depois de relatarem as agruras da jornada, pediram ajuda contra os terrores da fome.
Defronte de José havia uma taça, que ele golpeou com a mão, arrancando dela um som lastimoso. Os irmãos mostraram-se consternados: soltaram a língua e perguntaram-lhe:
“Ó Aziz! Sabes tu, ou sabe alguém, o que significa este som?”
“Sei muito bem”, respondeu José, “mas vós não suportareis que eu vos diga o que ele significa; pois a taça revela que tínheis um irmão, notável por sua beleza, que se chamava José.”
Em seguida, golpeou a taça pela segunda vez e disse:
“Diz-me a taça que o jogastes num poço e matastes um lobo inocente para, com o seu sangue, sujar o casaco de José”.
Golpeou a taça pela terceira vez e arrancou dela, de novo, um som lamentoso. E ajuntou:
“Afirma a taça que os irmãos de José venderam o irmão e mergulharam o pai num abismo de dor.”
“O que foi que esses infiéis fizeram a seu irmão? Temei a Deus, pelo menos, ó vós que estais diante de mim!”
Isso os deixou em tal estado que eles se puseram a suar de medo, eles, que tinham vindo pedir pão. Ao venderem José, tinham-se vendido; e quando o largaram no poço, foram arremessados numa voragem de aflição.
O que ler esta história sem proveito é cego. Não passes os olhos por ela com indiferença, porque esta não é senão a tua própria história. Continuas a cometer pecados e faltas porque não te alumia a luz da compreensão. Se alguém golpear a taça da tua vida, porá de manifesto, para ti mesmo, teus atos culposos. Quando a taça da tua vida for golpeada e despertares do sono; quando tuas injustiças e pecados forem expostos, um por um, duvido que conserves a paz ou a razão. Semelhas uma formiga coxa numa tigela. Quantas vezes já desviaste a cabeça da taça do céu? Estende as asas e voa para o alto, tu, que tens conhecimento da verdade. Senão, correrás sempre que ouvires o som de uma taça.




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